sábado, 12 de novembro de 2016

Por que o autismo em meninas se manifesta de forma diferente?


O autismo se manifesta de forma diferente em meninas. É preciso ficar atento: casos mais leves em meninas estão sendo confundidos com outros transtornos, como TOC e TDAH, diz especialista em neurociências e neuropsicologia.
Os critérios utilizados para diagnosticar o autismo são baseados nos comportamentos sobretudo masculinos. Assim, casos mais leves em meninas estão sendo confundidos com outros transtornos, como TOC e TDAH.
Até recentemente, o caso da famosa zootecnista americana Temple Grandin, conhecida mundialmente por seu trabalho de conscientização do autismo, era considerado exceção. Afinal, pela visão tradicional do autismo, de cada cinco crianças que apresentam o distúrbio, apenas uma é menina – sendo que, geralmente, nelas os sintomas se manifestam de forma mais severa. Entre as pessoas com autismo e inteligência acima da média, como Temple, a proporção é ainda mais discrepante: somente uma em cada dez é menina. Recentemente, no entanto, a ciência passou a rever essas estatísticas. Estudos mostram que o mais provável é que as meninas que apresentam autismo de alto funcionamento estão escapando do radar dos médicos.
Pesquisadores holandeses investigaram de 2.275 pacientes com o transtorno e constataram, em 2012, que os casos mais leves (conhecidos como Síndrome de Asperger), são identificados em média 20 meses mais tarde em meninas. No mesmo ano, cientistas do King´s College, de Londres, analisaram os diagnósticos de 15 mil pacientes e constataram que as meninas precisam apresentar dificuldades comportamentais ou intelectuais mais severas para serem diagnosticadas, o que diminui consideravelmente a chance de entrarem para a extremidade mais funcional do espectro.
A principal razão para essa dificuldade na identificação dos sintomas nas meninas está no simples fato de que os critérios de avaliação foram feitos com base em padrões essencialmente masculinos. Um dos primeiros sinais buscados por especialistas nas avaliações, por exemplo, é o interesse específico incomum. Enquanto em meninos isso fica evidente, nas garotas passa facilmente despercebido, pois elas tendem a direcionar seu interesse a assuntos que não necessariamente são considerados estranhos para sua faixa etária.
Mas o fator que mais atrapalha o diagnóstico está no comportamento social das meninas com autismo: de forma diferente dos meninos, elas conseguem disfarçar suas dificuldades sociais com sua habilidade especial em copiar o comportamento de outras meninas. Essa camuflagem tende a ser mantida durante a vida acadêmica e mesmo mais tarde, no ambiente de trabalho.
Assim, tentam se ajustar às regras sociais com estratégias mais intelectuais e menos intuitivas. De acordo com as pesquisadoras Judith Gould e Jacqui Ashton-Smith – duas referências mundiais no estudo do autismo em mulheres -, além dessa habilidade de mímica, as garotas do espectro, diferentemente dos meninos, tendem a se envolver quando pequenas em brincadeiras de faz de conta e se engajar em um mundo de fantasia e imaginação com facilidade.
A professora Francesca Happé, do departamento de Neurociência Cognitiva do Kings College, acredita que a camuflagem social típica feminina é um dos principais entraves para a identificação precoce dos casos leves. Ela defende que os médicos investiguem mais profundamente o comportamento entre as meninas, procurando saber o nível de ansiedade e stress que as interações sociais provocam. Happé acredita que fator cultural também possa exercer um papel nessas diferenças, já que as expectativas com relação às interações sociais e comunicação entre meninas é mais alta, o que pode levar a um estímulo maior desde cedo.
O que acontece com frequência é a interpretação errada de sintomas como ansiedade, problemas alimentares e comportamentos rígidos e repetitivos nas consultas médicas. Assim, muitas garotas atravessam a infância e a puberdade sem saber a real origem de suas dificuldades sociais e sem receber os estímulos adequados para desenvolverem as questões mais desafiadoras. Muito comumente são diagnosticadas com transtorno obsessivo compulsivo (TOC) ou recebem o diagnóstico-curinga de transtorno de hiperatividade e déficit de atenção (TDAH) – que devido a seus critérios amplos e subjetivos é identificado de forma rápida e superficial, o que ajuda a mascarar as reais causas dos sintomas relacionados.
Também é bastante comum que se encaixem no perfil de distúrbios alimentares. Uma meta-análise de 2015 liderada pela pesquisadora Kate Tchanturia, também do King´s College, contatou que 23% das meninas com anorexia nervosa apresentaram sintomas de autismo. Essa relação se dá como consequência de vários fatores: a típica aversão a vários tipos de alimentos, a ansiedade, medo de crescer e sair de perto dos pais, dificuldade em aceitar as mudanças no corpo e busca por mais aceitação social na adolescência.
Segundo Happé, a ciência tem muito a descobrir sobre como o transtorno se manifesta nas mulheres. Afinal, se as meninas da ponta funcional do espectro não estão sendo reconhecidas, também são pouco estudadas. Mas essa escassez de informações está com os dias contatos. Pesquisadores das Universidades de Harvard, da Califórnia e de Washington estão conduzindo uma ampla pesquisa longitudinal para investigar todos os aspectos possíveis de como o autismo se manifesta em meninas desde a infância até o início da idade adulta.
Segundo o cientista Kevin Pelphey, diretor do departamento de Neurociências de Desenvolvimento da Universidade de Yale, os resultados iniciais já estão comprovando que tudo o que a ciência sabia sobre o autismo é verdade apenas para meninos. O fato de autistas usarem áreas diferentes do cérebro para processar informações sociais – como gestos e movimentos oculares – não se aplica entre meninas. O que já puderam perceber é que meninas do espectro apresentam atividade cerebral reduzida, com relação a garotas típicas, em áreas relacionadas à socialização. Mas em um nível que, em meninos, poderia ser considerado dentro da curva da normalidade.
Existem também evidências de que em meninas o fator genético é mais forte – uma conclusão que resulta da constatação de que elas têm uma chance bem maior de ter irmãos com traços autistas que o contrário. Alguns também defendem a relação do transtorno com a exposição a altos níveis de certos hormônios, como testosterona: um estudo sueco de 2015 apontou que mulheres com ovários policísticos têm 59% mais chances de ter um filho com autismo.
A boa notícia é que o assunto emergiu com força e grande repercussão. Hoje, diversos pesquisadores ao redor do mundo, inclusive mulheres com autismo funcional e pais de meninas com o mesmo diagnóstico, estão determinados a desvendar o cérebro autista feminino. Essa nova perspectiva irá facilitar, muito em breve, identificação precoce e, assim, tratamentos mais eficazes e dirigidos às necessidades específicas das meninas.

Michele Müller, Brasil Post
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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O que é a mente?

A mente é um tema de grandes discussões no campo da Psicologia. Para os que seguem a perspectiva da Análise do Comportamento, há ainda mais questionamentos. O que é a mente? Como a mente interfere no modo como agimos?
Há o equívoco de que a Análise do Comportamento não estuda a mente e se atém apenas aos comportamentos observáveis. Entretanto, é necessário uma distinção: a mente como um substantivo e a mente como um verbo.
A Análise do Comportamento enquanto uma perspectiva não internalista, desconsidera a mente como um substantivo, uma instância psíquica, um lugar oculto, uma “coisa” ou entidade.  Pode-se considerar que para a perspectiva internalista: “ o homem interior guia o corpo da mesma maneira que o guidão da direção orienta o automóvel. O homem interior deseja uma ação, o exterior executa. O interior perde o apetite, o exterior para de comer. O homem interior quer, o exterior consegue” (Skinner, 1953, p.31)
A perspectiva externalista na Análise do Comportamento considera a mente enquanto um verbo, isto é, comportamentos aprendidos ao longo da história de vida da pessoa que são mais prováveis de serem emitidos. Ou seja, se você se comporta de uma determinada maneira não é por causa de uma Mente ou um Eu Interior, mas de uma história de aprendizagem individual, cultural e inclusive pela evolução fisiológica da espécie.
Toda essa atribuição internalista dos processos humanos, para a Análise do Comportamento, não é necessária. Os fenômenos denominados “mentais” são controlados pelas mesmas contingências e variáveis que o comportamento que podemos observar. O comportamento privado, isto é, aquele que pode ser observado apenas pela própria pessoa “são dotados de natureza física e podem ser interpretados com os mesmos conceitos com os quais se interpretam os fenômenos públicos” (Simonassi, Tourinho,& Silva, 2001, p.134). Isto significa que os seus pensamentos, sonhos, sentimentos, entre outros comportamentos privados, são possíveis de serem compreendidos da mesma forma que os comportamentos públicos.
“A inacessibilidade à observação pública, que confere especificidade aos eventos privados, pode ser momentânea e circunstancial. Indiretamente, aqueles eventos podem tornar-se públicos com o relato do participante, produzido por contingências de que a comunidade verbal dispõe” (Simonassi, et al. 2001, p.134)
Sendo assim, é viável entender os comportamentos privados, que inicialmente em sua ocorrência não são possíveis de observação, a partir do comportamento público e verbal da pessoa, quando esta os relata de forma descritiva. “O ponto central é que a análise behaviorista radical do pensamento é, na verdade, uma análise das contingências verbais envolvidas com o termo “pensamento”” (Zilio, 2010, p.151).
Quando alguém diz que está nervoso, cabe a pergunta: O que é estar nervoso? Com o objetivo de que a pessoa consiga discriminar quais sensações e ações comportamentais que são nomeadas como nervosismo. Por exemplo, ter sensação de taquicardia, mãos trêmulas, sudorese etc. Ou seja, esse conjunto de comportamentos públicos são nomeados como “nervosismo” e acabam por serem considerados “internos, mentais”. Cabe analisar de forma descritiva todos os comportamentos emitidos pela pessoa, sejam eles observáveis ou não. “Enquanto caminho pela sala, estou me comportando; enquanto penso no que vou dizer em seguida, estou me comportando; enquanto sinto a ansiedade característica de me expor ao público, também estou me comportando” (Machado, 1997, p.101)
A Análise do Comportamento não compartilha do dualismo entre mente e corpo, pois uma vez que a mente é considerada imaterial e o corpo como material, a mente se torna algo para além do organismo, ou seja, um “substantivo” que governa o modo como nos comportamos. Na perspectiva externalista e materialista que baseia-se a Análise do Comportamento, o estudo do ser humano deve partir da análise do organismo como um todo, em sua interação com o ambiente. Isso compete aos seus comportamentos resultados dessa relação, sejam eles acessíveis a observação direta ou aqueles que inicialmente são observados apenas pela pessoa que emite, mas que, a partir do relato, da descrição comportamental, é possível compreender as variáveis pelas quais o comportamento é determinado.
Para a Análise do Comportamento, o termo “Mente” representa uma nomeação internalista para um série de comportamentos privados que ao analisarmos de forma descritiva, revelam sua natureza física e observável. Desse modo, a mente representa os comportamentos selecionados a partir da história de vida do individuo, com maior probabilidade de ocorrência, isto é, disposições para agir de determinada maneira nas mais diversas situações.
Nossos comportamentos são nomeados pela cultura com perspectivas internalistas, então quando uma pessoa emite o comportamento de chorar com frequência os outros a nomeiam como alguém frágil, por exemplo. Assim temos uma característica causal, ou seja, a pessoa chora com frequência porque é frágil (perspectiva internalista). Já a Análise do Comportamento visa identificar os comportamentos, privados e públicos, nomeados como fragilidade e quais as variáveis ambientais, antecedentes e consequências, mantém esse comportamento enquanto uma disposição para agir dessa forma. “Os conceitos mentais que puderem ser “traduzidos”  a partir dessa concepção de mente, podem ser estudados em termos de comportamento e, consequentemente, de modo científico” (Lopes, 2003, p. 87).
Referências:
Lopes, C. E. (2003). Conceitos disposicionais no Behaviorismo Radical e a mente imanente. Em M. Z. S. Brandão, F. C. S. Conte, F. S. Brandão, Y. K. Ingberman, C. B. de Moura, V. M. da Silva e S. M. Oliane (orgs.) Sobre Comportamento e Cognição, vol. 11, pp. 82-88. Santo André: ESETec.
Machado, L.M.C.M. (1997). Consciência e Comportamento Verbal. Psicologia USP, 8(2), 101-108.
Simonassi, L.E., Tourinho, E. Z., & Silva, A. V. (2001). Comportamento privado: acessibilidade e relação com comportamento público. Psicologia: Reflexão e Crítica, 14(1), 133-142.
Skinner, B.F. (2000). Ciência e comportamento Humano. Tradução de J. C. Todorov e R. Azzi. São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1953).
Zilio, D. (2010). A natureza comportamental da mente : behaviorismo radical e filosofia da mente. São Paulo: Cultura Acadêmica. 294p.

Crianças contam como é conviver com amigo que apresenta autismo!



TEA e a importância da equipe multidisciplinar

O psicólogo e a equipe multidisciplinar no cuidado à criança com espectro do autismo.

O autismo é considerado um transtorno do desenvolvimento, definido por critérios clínicos, tendo como principais características o comprometimento das áreas de interação social, da comunicação e do comportamento. O autismo é um transtorno neuropsiquiátrico, que tem uma etiologia multifatorial (interação de fatores genéticos, neuroquímicos e ambientais). O conceito do espectro do autismo abrange comprometimento da interação social, da comunicação verbal e não-verbal, comportamentos repetitivos e interesses restritos (Minatel, M.M., 2013; Rosa, F.D., 2015).

Segundo Brasil (2015): “O processo diagnóstico deve ser conduzido por uma equipe multidisciplinar que possa estar com a pessoa ou a criança em situações distintas: atendimentos individuais, atendimentos à família, atividades livres e espaços grupais”. A pluralidade de hipóteses etiológicas, ainda sem consensos conclusivos, exige um trabalho multidisciplinar e integral para a pessoa com TEA (Transtorno do Espectro do Autismo). A identificação de risco para TEA pode e deve ser feita precocemente, porém o diagnóstico definitivo de transtorno do espectro do autismo só pode ser firmado após os três anos de idade a partir de uma avaliação criteriosa (Brasil, 2015).

Ao trabalhar com a criança autista, a equipe multiprofissional deve propor um trabalho na linha da inclusão social. Verificar se a criança está frequentando a escola, se interage com outras crianças e como os pais estimulam esta criança para interação social.
Vale ressaltar que os serviços do SUS (Sistema Único de Saúde) têm tido uma experiência exitosa no que se refere ao cuidado a crianças e adolescentes autistas. Os CAPSij (Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil) são dispositivos de cuidado que devem contar com uma diversidade de abordagens para a complexidade e a diversidade das necessidades das pessoas em seus contextos de vida (Brasil, 2015). Nos CAPSij realizam-se atendimentos individuais com diversos profissionais dependendo da necessidade de cada criança (fonoaudiólogo, psicólogo, terapeuta ocupacional e psiquiatra) e em grupos. Também é realizado trabalho de orientação e acompanhamento com pais e familiares. Há também o trabalho de algumas ONGs que se propõem a atender as crianças com TEA. Porém, ainda há poucos locais que dão assistência a essas crianças.

Há alguns trabalhos que apontam as abordagens sensoriais e corporais na estimulação da criança com TEA, além de abordagens lúdicas e musicais que permitam a socialização e interação. É de grande importância propostas que incluam a descontinuidade dos automatismos através de diferentes experimentações.

O trabalho do Psicólogo e da equipe multiprofissional valorizam algumas ações terapêuticas como manter o mesmo setting, manter o contato visual, utilizar linguagem simples, concreta e objetiva, valorizar habilidades e interesses, bem como a linguagem não verbal.

A experiência terapêutica, seja individual ou em grupo, possibilita dar sentido àquilo que é vivido pela criança, seja no brincar criativo ou na experiência sensorial, possibilitando a comunicação (verbal e/ou não verbal) e o desenvolvimento da capacidade de simbolização.



Referências:

– Brasil. Linha de cuidado para atenção às pessoas com transtorno do espectro do autismo e suas famílias na rede de atenção psicossocial do Sistema Único de Saúde.

– Minatel. M.M. Cotidiano, demandas e apoio social de família de crianças e adolescentes com autismo – Dissertação Mestrado. São Carlos: UFSCAR, 2013.

– Rosa. F.D. Autistas em idade adulta e seus familiares: recursos disponíveis e demandas da vida cotidiana – Tese Doutorado. São Carlos: UFSCAR, 2015.



Marília Sper de Albuquerque Olivares – Psicóloga

O que é espectro do autismo?




Autismo – um breve histórico

“… Imagine chegar em um país onde você não entende a língua e não conhece os costumes – e ninguém entende o que você quer ou precisa. Você, na tentativa de se organizar e entender esse ambiente, provavelmente apresentará comportamentos que os nativos acharão estranhos…” (citação retirada do Manual de Treinamento ABA – Help us learn – Ajude-nos a aprender.)
Esta frase pode ser utilizada para compreender a maneira de uma criança portadora do Transtorno de Espectro Autista pensar, sentir e se comportar. Muitos dizem realmente que o autista constrói para sí uma realidade paralela, alheia a nossa, e por viver “lá dentro” não consegue se comunicar com os outros que vivem no mundo “real”. Será verdade?

Alexandre Costa e Silva apresenta uma revisão deste do diagnóstico e tratamento deste transtorno em seu texto Abordagem Comportamental do Autismo. Segue-se aqui um resumo comentado deste texto.
Breve Histórico
A palavra “autismo” deriva do grego “autos”, que significa “voltar-se para sí mesmo”. A primeira pessoa a utilizá-la foi o psiquiatra austríaco Eugen Bleuler para se referir a um dos critérios adotados em sua época para a realização de um diagnóstico de Esquizofrenia. Estes critérios, os quais ficaram conhecidos como “os quatro ‘A’s de Bleuler, são: alucinações, afeto desorganizado, incongruência e autismo. A palavra referia-se a tendência do esquizofrênico de “ensimesmar-se”, tornando-se alheio ao mundo social – fechando-se em seu mundo, como até hoje se acredita sobre o comportamento autista. 
Em 1943 o psicólogo norte americano Leo Kanner estudou com mais atenção 11 pacientes com diagnóstico de esquizofrenia. Observou neles, o autismo como característica mais marcante; neste momento, teve origem a expressão “Distúrbio Autístico do Contato Afetivo” para se referir a estas crianças. O psicólogo chegou a dizer que as crianças autistas já nasciam assim, dado o fato de que o aparecimento da síndrome era muito precoce. A medida em que foi tendo contato com os pais destas crianças ele foi mudando de opinião. Começou a observar que os pais destas crianças estabeleciam um contato afetivo muito frio com elas, desenvolvendo então o termo “mãe geladeira” para referir-se as mães de autistas, que com seu jeito frio e distante de se relacionar com os filhos promoveu neles uma hostilidade inconsciente a qual seria direcionada para situações de demanda social.
As hipóteses de Kanner tiveram forte influência no referencial psicanalítico da síndrome que  pressupunha uma causa emocional ou psicológica para o fenômeno, a qual teve como seus principais precursores os psicanalistas Bruno Bettelheim e Francis Tustin.
Bettelheim, em sua terapêutica, incitava as crianças a baterem, xingarem e morderem em uma estátua que, pelo menos para ele, simbolizava a mãe delas. Tustin, por outro lado, acreditava em uma fase autística do desenvolvimento normal, na qual a criança ainda não tinha aprendido comportamentos sociais e era chamada por ela de fase do afeto materno,  funcionando como uma ponte entre este estado e a vida social. Se a mãe fosse fria e suprimisse este afeto, a criança não conseguiria atravessar esta ponte e entrar na vida social normal, ficando presa na fase autística do desenvolvimento. Em 1960, no entanto, a psicanalista publica um artigo no qual desfaz a idéia da fase autística do desenvolvimento. 
Naquela época a busca pelo tratamento psicanalítico era muito intensa. Muitas vezes as crianças passavam por sessões diárias, inclusive no domingo. O preço pago era muito alto. Muitas famílias vendiam seus bens na esperança de que aquele método as ajudasse a corrigir o erro que haviam cometido na criação de seus filhos. Com o advento da década do cérebro, no entanto, estas idéias começaram a ser deixadas de lado – além de não estarem satisfazendo as expectativas dos pais. A partir de 1980 foram surgindo novas tecnologias de estudo, as quais permitiam investigação mais minuciosa do funcionamento do cérebro da pessoa com exames como tomografia por emissão de pósitrons ou ressonância magnética. Doenças que anteriormente eram estudadas apenas a partir de uma perspectiva psicodinâmica passaram a ser estudadas de maneiras mais cuidadosas, deixando de lado o cogito cartesiano. 
Já na década de 60 o psicólogo Ivar Lovaas e seus métodos analítico comportamentais começaram a ganhar espaço no tratamento da síndrome. Seus resultados apresentavam-se de maneira mais efetiva do que as tradicionais terapias psicodinâmicas. E já naquela época as psicologias comportamentais sofriam forte preconceito por parte dos psicólogos de outras abordagens.  Durante as décadas de 60 e 70 os psicólogos comportamentais eram consultados quase que apenas depois que todas as outras possibilidades haviam se esgotado e o comportamento do autista tornava-se insuportável para os pais e muito danoso para a criança.
E como o autismo é visto hoje?
É característico do autista apresentar alguns déficits e excessos comportamentais em diversas áreas, conforme melhor explicado adiante. O grau de comprometimento destes déficits podem variar de uma criança para outra e na mesma criança ao longo do tempo. Por este motivo, a expressão Transtorno do Espectro Autista  tem sido mais utilizada em detrimento da palavra Autista. 
Manuais diagnósticos como o DSM – IV TR e o CID – 10 caracterizam o autismo como um transtorno pervasivo do desenvolvimento no qual existe comprometimento severo em áreas como: diminuição do contato ocular; dificuldade de mostrar, pegar ou usar objetos; padrões repetitivos e esteriotipados de comportamento; agitação ou torção das mãos ou dedos, movimentos corporais complexos; atraso ou ausência total da fala. A National Society for autistic children o encara como um distúrbio do desenvolvimento que se manifesta de forma incapacitante por toda a vida, aparecendo tipicamente nos três primeiros anos de vida. Define como critérios para diagnóstico do autismo o precoce comprometimento na esfera social e de comunicação.
Este Transtorno Invasivo do Desenvolvimento acomete apenas cinco entre cada dez mil nascidos, ocorre em famílias de todas as configurações raciais, étnicas ou sociais. Gauderer (1993) afirma que maioria das crianças com diagnóstico do Transtorno de Espectro Autista tem fisionomia normal, e sua expressão séria pode passar a idéia, geralmente errada, de inteligência extremada. Apesar da estrutura facial normal, no entanto, estão quase sempre ausentes a expressividade das emoções e receptividade presentes na criança com desenvolvimento típico. 
Nem sempre o autismo está associado a deficiência mental. Às vezes ele ocorre em crianças com inteligência classificada como normal. O chamado “déficit intelectual” é mais intenso nas habilidades verbais e menos evidente em habilidades viso-espaciais. É muito comum, no entanto, crianças com este diagnóstico apresentarem desempenho além do normal em tarefas que exigem apenas atividades mecânicas ou memorização, ao contrário das tarefas nas quais é exigido  algum tipo de abstração, conceituação, sequenciação ou sentido.
Incidência
Existem várias definições e critérios diagnósticos diferentes do que vem a ser o autismo. Em  decorrência disto, é difícil traçar um nível de incidência confiável, pois conforme variam as definições e critérios diagnósticos, variam também a quantidade de pessoas diagnosticadas. Os índices mais aceitos e divulgados, no entanto, trazem uma média de 5 a 15 casos em cada 10 000 pessoas. Pesquisas epidemiológicas utilizando o DSM – III-R identificam o dobro deste numero. Quando os criterios medicos são deixados de lado em detrimento dos educacionais, a média aumenta para 21 casos em cada 10 000 pessoas. Quando a síndrome é mais rigorosamente classificada e diagnosticada, entretanto, encontra-se uma prevalência de 2 casos para cada 10 000 pessoas. Independentemente de qual critério diagnostico seja adotado, sabe-se que pessoas do sexo masculino são em geral mais atingidas. De acordo com o DSM – IV, ele ocorre três ou quatro vezes mais em meninos do que em meninas. Estas, no entanto, tendem a apresentar limitações mais severas.
Algumas hipóteses etiológicas
Embora diversos tipos de alterações neurológicas e/ou genéticas tenham sido descritas como prováveis etiologias do autismo, não há nada comprovado ainda. 
O transtorno pode estar diretamente associado a problemas cromossômicos, genéticos, metabólicos, e até mesmo doenças transmitidas ou adquiridas durante a gestação, durante e após o parto. A dificuldade em elaborar um diagnóstico de autismo é grande, quando se pensa que diversas síndromes possuem sintomatologia semelhante. Uma quantidade de 75 a 80% das crianças com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista apresenta algum tipo de retardo mental, o qual pode estar associado a inúmeros fatores biológicos.
Alguns autores, como Gauderer  afirmam que algumas alterações encefálicas em fases críticas do desenvolvimento embrionário podem dar origem a algum tipo de transtorno que se enquadre no diagnóstico de transtorno do espectro autista, mas os exames clínicos que vem sendo realizados não demonstram correlação significativo entre estas alterações e o transtorno.

Texto originalmente publicado no site Psicologia e Ciência. 

Importância da Psicoterapia!